segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Geringonça

Alguns amigos me repreenderam. Dizem que os verdadeiros amigos são aqueles que nos repreendem. Repreenderam-me por chamar o nosso país de Geringonça. Não me convenceram do contrário, então disseram que se eu continuasse com tal comportamento que me deixariam. A amizade verdadeira é aquela que repreende e depois abandona. Então lhes disse que seguissem seus caminhos, pois é melhor a companhia de desconhecidos do que de verdadeiros amigos.

Tentei ainda explicar-lhes que a palavra Geringonça era a melhor palavra para resumir este país. Segundo alguns dicionários, Geringonça significa: casa mal feita e de fácil destruição. Alguém pode ir contra tal definição sobre nosso país?

A definição chega a ser óbvia. A primeira premissa já denuncia a segunda. O que é mal feito tende à destruição. Mas meus verdadeiros amigos, como excelentes filhos desta terra, aprenderam a culpar os outros por nossos vícios. Assim, parece que somos bons e superiores. Sim, pois quem denuncia é superior ao denunciado. Mas no nosso caso, o vício tenta denunciar a virtude, colocando esta como vício e nosso vício como virtude.

Quem tem boca...

Conversando com uma senhora, ela disse-me que repudiava o comportamento do povo em vaiar o presidente da república das bananas. Aquele era um ato reprovável. Ninguém é obrigado estar satisfeito com o governo do Mollusco, mas desreipeitar a maior autoridade do país é vergonhoso. Parece que ela percebia em minha face um sorriso matreiro querendo se abrir, então apelou para as Escrituras Sagradas. Ela citou algumas passagens bíblicas que ensinavam o respeito às autoridades. Toda autoridade é designada por Deus, logo desreipeitar uma autoridade é desrespeitar Deus. Sabia que aquela senhora nunca ouvira falar de Aristóteles, mas manuseava muito bem a lógica do peripatético da Macedônia.

Para descontrair disse-lhe que o provérbio é falado de maneira errada. Todos costumam falar: Quem tem boca vai à Roma. O modo correto é: Quem tem boca vaia Roma. Isso referindo-se à Roma, o Império Romano. Pasmem! A vaia é mais antiga que as barbas do profeta de Garanhuns!

Continuamos conversando sobre as Escrituras, pois eis um assunto que muito me agrada. Lembrei com ela como Jesus enfrentou os fariseus, saduceus, sacerdotes do Templo com muita sabedoria e ironia. Enfrentou também o governador romano e seus dirigentes. Chegou a chamar de "raposa" a Herodes. Diante deste pensamento perguntei a nobre senhora: de onde, raios, o apóstolo Paulo tirou que devemos obedecer autoridades corruptas? não seria uma contradição, o Filho de Deus denunciar e atacar a corrupção humana e depois ensinar que deveríamos obedecer cegamente às autoridades por serem designadas por Deus? e contradição é algo inaceitável no comportamento divino.

A senhora nada falou, apenas deu um daqueles sorrisos maternos e meigos que comove o coração de quem sente muita saudade de sua mãe. Aí, propus-lhe um novo provérbio, algo que revelasse mais o nosso contexto: Quem tem boca vaia Lulla! E caímos na gargalhada!

domingo, 5 de agosto de 2007

Palavras de abertura

Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores, que a vitória no meio dos desertos, cheia da cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. (Fernando Pessoa)